A MENINA DO INTERIOR QUE QUERIA SER ADVOGADA: um autorretrato de Débora Gonçalves


Débora significa abelha laboriosa e indica uma pessoa que possui uma força de vontade excepcional. No cristianismo, Débora foi a primeira mulher juíza de Israel e liderou um exército de Homens com bravura e determinação. Além disso, Débora da Abayomi é sagitariana, ama a liberdade ao extremo e não pode ver uma aventura que quer ir...



Essa é a Débora que nasceu em Palmares, Zona da mata sul de PE e na adolescência viu sua prima se formar em Direito! Ah, eu achava lindo a forma dela falar, o conhecimento que ela tinha e como ela falava com amor sobre o que ela fazia, em razão disso eu falei que eu queria ser advogada. (É MUITO IMPORTANTE TERMOS REPRESENTATIVIDADE).


Quando consegui terminar o ensino médio no interior, tive o privilégio de vir morar na capital com o apoio da minha família e precisei trabalhar para pagar a faculdade.


Na minha primeira entrevista de emprego, em uma loja de classe alta no shopping, eu ouvi a seguinte frase: “VOCÊ É BOA, MAS NÃO FAZ O PERFIL DA LOJA!“. Na minha ingenuidade, eu pensei: ”que perfil será esse?“


Dias depois, ao passar na frente da loja, percebi que todas as vendedoras eram brancas e loiras. Foi aí que percebi que realmente eu não tinha o perfil da loja.


Continuei procurando emprego e consegui uma vaga temporária de final de ano para estoquista de uma outra loja no Shopping, pois eu queria ser advogada e não poderia desistir disso! Estoquista fica escondida, então eu fiz o perfil daquela loja.


Com pouco tempo consegui uma vaga como recepcionista de um curso de inglês, momento em que comecei a pagar a faculdade com ajuda da minha mãe.

Ao longo dos períodos eu consegui ingressar no programa do governo FIES com financiamento de 100%, que me deixou muito mais confortável e com a certeza de que terminaria o curso de Direito. Sou prova viva de que as políticas públicas transformam vidas e realizam sonhos.

A busca por estágio foi muito difícil, enviava dezenas de currículos para todos os escritórios de Recife e ninguém me escolhia. Alguns chamavam para a entrevista, mas eu nunca era selecionada e mais uma vez duvidei de mim: “será que eu realmente vou conseguir?”.


Um tempo depois eu consegui uma vaga em um escritório de Advocacia por indicação. Quando eu consegui o estágio, eu pensei que estava na última escala dos desafios que era ME FORMAR E SER ADVOGADA.

No 9º período eu fiz a prova da OAB, utilizando a metodologia MADA e passei. Em uma turma de mais de 30 alunos(as) só eu e outra colega fomos aprovadas. Mas adivinhem quem causava surpresa nos professores: “mas você passou?“.


Eu cumpri todas as metas que tracei em minha vida para chegar em meu objetivo que era ser Advogada, mas nada aconteceu como eu acreditava, pois o racismo estrutural esteve presente em cada momento. Eu achei que me formar seria o último desafio dessa jornadas, mas foi na verdade o começo de tudo. Foi a partir daí que tive que lidar com a realidade do racismo e do patriarcado que dominam a advocacia pernambucana.

Mas, no meio de todas essas dificuldades, eu descobri que não estava sozinha. Eu tive a sorte e a honra de conhecer o meu quilombo e hoje digo, com toda certeza, que vivo meu melhor momento, pois tenho a força da ancestralidade de mulheres negras lutando ao meu lado por liberdade, justiça e equidade.


Ubuntu!

Eu sou porque nós somos.


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