Autorretrato em Preto e Preta - Rosangela Hilário


Primeira informação a meu respeito: Sou Mulher Preta e Abusada. Na Academia Rondoniense de Letras minha patronesse é Tereza de Benguela: Rainha Preta e Poderosa e Presidenta do Conselho Gestor do Quaritererê.


Vale demarcar que me inspiro em Tereza: Quaritererê não caiu em função da falta de gestão. Foram soldados que capturaram Tereza. Eles já haviam mudado de condição. Não eram mais bandeirantes ou capitães do Mato. Eram soldados da coroa.



Como Tereza, não sou mulher que foge a luta. Como Djanira, minha avó uso minha percepção de mulher preta para criar estratégias de sobrevivência e vivências.Nunca fui mulher contida. Contenção a mim soa como tentativa de silenciamento edizer a palavra foi minha maior conquista.

Todas as que sei e todas as que preciso aprender para me esparramar por um mundo que não me queria afrontando, causando, transbordando. Minha gargalhada obriga o interlocutor/a prestar atenção, se concentrar, buscar saber de que ou porque estou desafiando ao estabelecido, e gargalhando,quando a norma ratifica que mulher educada sorri. Não gargalha escandalosamente.


Sempre fui muito só e a solidão virou amiga intima em quem posso confiar: não me assusta, não me assombra, não me perturba. Transbordar de mim mesmo foi a única alternativa possível na escola, no curso de inglês, no clube, na graduação, no mestrado e doutorado e nas festas da neo burguesia que acreditava ser elite. Como diz a música da Alcione a dor de ser só nestes espaços e observada com perverso incomodo “já se fez minha amiga e dói devagar”.


Sendo só aprendi senti a necessidade de me aquilombar: ter outros/outras como eu para me ajudar no projeto de resistência para uma existência plena.


Eu sabia que minha figura causava estranheza e sempre me beneficiei disto: sou uma mulher grande por qualquer ângulo que se olhe. Não faço questão de ser menor e nem de me apequenar. Não vou ficar menor para estar em espaços que não me merecem. Para mim o único padrão que vale é o que crio para ratificar minha confiança em que a revolução é preta e periférica.


Repito roupas, releio livros e até amores se sentir que valham a pena.

Exerço minhas múltiplas identidades em espaços que se espantam e desconfortam em não me ver subalternizada e assujeitada em papéis que não quero exercer. Já fui chamada de “metida”, de soberba, arrogante.


A qualquer mulher branca os atributos que exerço para praticar meu direito a felicidade seriam considerados qualidades desejadas: assertividade, autoestima elevada, um profundo amor por pessoas e aguerrida vontade de lutar sempre que a ocasião pede.


Não falo baixo. Minha coragem é alimentada por meus medos. Não tenho tempo para ser titubeante: a juventude preta que me acompanha na resistência precisa de respostas.


Sou Professora e sou Doutora em Educação. Minha trajetória não se fez na comodidade de ter os pares para me amparar: muito antes pelo contrário. Já fiquei triste, já quis ficar menor para caber em espaços em que eu não precisava estar, já quis pertencer a grupos que só me queriam se fosse para me conformar.


Agora, não caminho mais sobre incertezas cinzentas e perspectivas nebulosas. Minha coragem é parida na necessidade do compromisso com os emudecidos pela cor da sua pele e condição social.



Quero ser referência para que outras meninas pretas não se apequenem para caber. Em relações, trabalhos, amores e afetos que não valem o risco de suas vivências. Meu combustível é o amor. Minha medida a intensidade.


A Meta?


Transbordar e inundar o mundo

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