Autorretrato - Rainha Guerreira: Lígia Verner


Nasci em Goiana, interior de Pernambuco.

Quando criança, sempre ouvia a palavra “Doutor”. Essa palavra me encantava, mas parecia que era algo não natural de me adjetivar, até porque só ouvia no masculino mesmo.



Considero essa impressão porque só ouvia a palavra no masculino e porque eram pessoas meio que intocáveis ou inatingíveis. Havia toda uma cerimônia pra se falar com e sobre o doutor tal e sua família.


Minha ancestralidade é afroindígena (sim, africanas e indígenas), essencialmente, portanto essa nomenclatura não era dispensada aos meus familiares, embora nossa família estivesse numa condição socioeconômica não tão desfavorecida em relação a outras, estas praticamente invisibilizadas (eu as via).


Eu observava as características dos homens considerados doutores, sempre brancos e ricos e era só isso que os diferenciava na nossa comunidade, ou seja, não era nem uma questão de formação acadêmica (academia não era assunto falado na nossa comunidade) e isso me deixava pensar que já que não nasci com aquelas características, aquele universo não seria uma possibilidade pra mim.


Mas eu não me conformava com aquilo. Havia algo errado. Até porque a minha avó paterna, Mãe Dora (in memoriam), certa vez, eu tinha menos de 6 anos, me olhou nos olhos, pegou nas minhas mãos e me falou com uma convicção indescritível “ você tem mãos de DOUTORA, que linda que você é! Esse momento até hoje é uma fortaleza pra mim e sempre me reconecta quando aciono ele, desde que percebi de forma mais consciente a sua importância subjetiva na minha vida.


A minha adolescência foi o momento em que, a partir dessas observações de desigualdade, errante mesmo, me envolvi em lutas e conflitos de duros combates.

As minhas características físicas também sempre foram uma questão social, cor da pele nem branca e nem preta, cabelos escuros e não lisos (cabelo de fuá, de bucha), lábios grossos (beiçuda), boca grande, voz grave (voz de homem) enfim... No universo de privilégios e padrões brancos nunca seria aceita, e noutro de fortalecimento de raízes africanas também não. Agora, se não tenho cabelos lisos como posso ser indígena?


Minha saída era tentar entender tudo isso e me reconhecer enquanto mulher no mundo, procurando me identificar com pessoas, grupos e movimentos sociais que tivessem uma visão sistêmica para identificar e desconstruir padrões excludentes e opressores. Esses conflitos externos sempre me fizeram ter a necessidade de preservar momentos de reconexão individual, pois as contraenergias vez ou outra, até hoje, me baqueiam muito e só me reconectando espiritualmente e ancestralmente para seguir adiante. É um trabalho constante que faz parte do meu processo missionário planetário para colaborar no atingimento de uma dimensão coletiva mais justa e feliz de se viver.


Diante desta base, sou ativista do antimachismo, antirracismo, antilgbtfobia e antidiscriminação de uma maneira ampliada, desde 1986. Militante da Cultura e dos Direitos Humanos. Sou Advogada, especialista em Direito Administrativo pela UFPE. Sim, sou DOUTORA, ou não se chama mais de doutor ou doutora quem SÓ concluiu a graduação? Mas se antes se chamava assim qualquer homem branco, principalmente se rico, mesmo que analfabeto...


Será que esse tipo de tratamento mudou porque muitas pessoas pobres, negras e indígenas ultrapassaram a barreira acadêmica e se formaram em profissões de nível superior? Será porque tivemos um período de ascensão econômica que nos permitiu sair da invisibilidade expandindo nossa mobilidade e presença contrariando o epistemicídio?


Desconfio que sim.

Sou mãe de Naia Eduarda de Santana e avó de Íris Acioli de Santana Vitor. Fui doula da minha filha quando minha neta nasceu.

Quando engravidei da minha filha parei de estudar por nove anos, quando voltei conclui o magistério e me tornei Professora.

Mãe aos 17 anos de idade, nos nove anos que sucederam o nascimento dela não fiquei alheia aos movimentos ltransformadores e revolucionários, com dois meses de nascimento da minha filha tive o meu primeiro protagonismo independente feminista quando fui a primeira mulher a integrar o balé de dança negra em Pernambuco, num grupo composto apenas por homens, o Balé Kebiosô (pássaro de fogo, em ioruba).

Naquela época os balés afros eram tradicionalmente compostos apenas por homens. Eram 12 homens e apenas eu de mulher, posteriormente seguida por outra companheira negra. Nossa indumentária era apenas um “tapa-sexo” feito de amarração de pano vermelho. O Balé surgiu de uma oficina do Afoxé Alafim Oyó ao qual eu frequentava desde 1986, nos apresentamos em teatros, universidades e até desfilamos em uma escola de samba.

Desde esse tempo sempre estive ligada a movimentos sociais e de cultura e educação.


lNesse período e até final dos anos 1990 o ativismo negro se manifestava muito, sobretudo nos afoxés de Olinda, e o feminismo negro do qual eu fazia parte começava a romper estruturas machistas da época, por exemplo, quando as primeiras mulheres assumiam a presidência dos afoxés, quando éramos interlocutoras em assuntos ligados à política, justiça social, economia e outros, quando integrávamos grupos de música e tocávamos instrumentos antes só “permitidos” para homens, como atabaques, alfaias, entre outros.


Ministrei, junto com uma companheira, a primeira oficina de confecção de abê do Brasil, em 1997 que culminaria com o Bloco do Abê. A oficina era apenas para mulheres e nosso exercício final foi desfilar no Bloco do Abê no carnaval de Recife e Olinda. O desafio era acompanhar musicalmente as agremiações, maracatus, afoxés, blocos, etc., com isso tivemos na prática uma experiência musical diversificada.


O resultado foi que chamamos muita atenção o que resultou na propagação do abê como vemos hoje nos palcos e grupos de música (maracatus, cocos, cirandas, etc.). Essa oficina foi realizada também no Rio de Janeiro. Considero que este protagonismo gerou um movimento revolucionário no Brasil, e ampliou, com o uso do abê, a participação das mulheres em grupos musicais.


Em 1997 integrei como cantora e arte educadora o primeiro maracatu composto exclusivamente por mulheres do mundo, o Maracatu Badia. Integrei diversos grupos protagonizados por mulheres, a exemplo de Aurinha do Coco e Lia de Itamaracá e tive a oportunidade de viajar pelo Brasil e ao exterior.

Atuei no Programa Brasil Alfabetizado de Olinda/PE, 2006 e 2007 com a comunidade de uma ocupação na antiga “Casa das Crianças de Baccaro”. Dava aulas nos terrenos das casas de papelão e/ou maneira, sem nenhum saneamento básico. A maioria das turmas era composta por mulheres e tínhamos a oportunidade de conversar sobre as realidades sociais e os enfrentamentos políticos para a superação das opressões e a importância básica de saber ler e escrever e da educação como ferramenta de emancipação feminina. As moradoras eram catadoras de materiais recicláveis na sua maioria e algumas produziam arte com lacres de latas de bebidas.


Neste período pude observar os potenciais e as potências existentes nas comunidades pelas mulheres e me identificar com elas na superação das dificuldades e obstáculos pessoais e sociais. Foi um período de muita troca de experiências, dororidade, sororidade e respeito.


Trabalhei como Assistente Pedagógica, atendendo 2800 jovens no PROTEJO/PE. Na ocasião do contrato ingressei no curso de Direito. A escolha do curso foi por perceber como os campos em que vivenciei e observei na cultura, educação, moradia, direitos humanos, e a opressão do machismo, racismo, neocolonialismo e outras formas de opressão necessitavam de uma atuação na perspectiva antidiscriminatória do Direito.

Sou Pesquisadora e Produtora Cultural desde 2006.


Em 2011 ingressei na Diretoria de Formação Cultural da Secretaria de Cultura de PE. Viajei por todo o Estado de Pernambuco coordenando, planejando, organizando, produzindo e supervisionando todas as ações de formação cultural da Secult/PE entre 2011 e 2013. Neste período firmamos parcerias com as secretarias da Mulher, de Justiça e Direitos Humanos, de Ressocialização, Pessoa com Deficiência entre outras, pude propor à Diretoria de Formação a atuação da cultura para além da arte em si, mas cultura como comportamento humano.


A partir daí levamos oficinas, palestras, rodas de diálogos e outras ações de formação cultural ampliada para jovens usuários (as) de unidades socioeducativas da FUNASE, pessoas adultas cumprindo pena em presídios de Pernambuco, rodas de conversas feministas em quilombos, seminários e oficinas sobre, com e para pessoas com deficiência (inclusive foi minha a proposta de tornar item de pontuação nos editais do Funcultura o quesito acessibilidade.


Fui Assistente dos Centros de População de Rua do Recife, depois Chefa do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil e atualmente, Advogada/Chefa do Centro LGBT do Recife.


Integro diversas Comissões da OAB/PE, entre elas a Comissão da Mulher Advogada, Comissão da Igualdade Racial, Comissão de Diversidade Sexual. Sou membra também da Comissão de Direitos Humanos da OAB/Olinda. Nestas comissões sou palestrante e organizamos seminários, campanhas de empoderamento, protagonismo e cidadania feminina, feminismo negro, antipatriarcado, antirracismo, antilgbtfobia e outros temas, como Violência Obstetrícia, Lei Maria da Penha, etc.


Tenho experiência também na atuação em quilombos e outras de povos originários, como por exemplo, povos Xucurus e Funiôs (a minha comunidade originária é a do Quilombo de Povoação de São Lourenço de Tejucupapo, composta essencialmente por pessoas negras e indígenas).


Procuro não fazer nada sem estratégia para a revolução e as modificações que quero ver no mundo. Respeito muito a mim mesma, minhas possibilidades, meus limites, meu bem-estar e, consequentemente, meu potencial de contribuição coletiva. Percebo que é importante se valorizar, estar forte para contribuir e que isso é uma dimensão essencial.


Sobre a união que movimenta e transforma, unir-se em aquilombamento, em irmandade, é uma fortaleza para a igualdade. Nós mulheres precisamos exercer bem a sororidade, a dororidade, o não apagamento, a não competição e o respeito pelas individualidades umas das e com as outras. Irmandade é pacto. Todos estes movimentos são o que fortalece o que denomino simbolicamente e inicialmente de MOVIMENTO ANTISORORICIDA.


Acredito nos destaques da coletividade, no todo, nos plurais. Só se é porque outras pessoas existem. Observo ser primordial saber dimensionar bem o que significa essa coexistência. Que sejamos contra tudo o que anular alguém, seja de que forma for. Vamos nos movimentar para mudar as estruturas opressoras.

Temos esse poder

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