Deusas da vida real - Autorretrato por Eliane Pereira

Eliane Pereira, mulher preta, dona de um sorriso largo, mãe do Pedro Henrique e da Maria Luisa, criada no Morro da Mineira, Centro do RJ, filha de Maria Eliani e Guarany, residindo em Oswaldo Cruz, subúrbio carioca há mais de vinte e cinco anos.


Falar da minha trajetória, inclui trazer um pouco da história da minha saudosa avó, Odete de Souza Tibúrcio, mulher sem estudo tradicional, mas dona de uma sabedoria sem igual, que saiu de Minas Gerais, após anos trabalhando na lavoura de uma fazenda em Carmo da Cachoeira para tentar sobreviver com seus 09 filhos vivos no Rio de Janeiro, se estabelecendo no Morro da Mineira, e diariamente, me dizia, quando criança, que o único caminho para nós "preto" era o estudo e entender de política, pois fazemos política o tempo todo "fia", veja a vovó, tentando trazer benefícios do governo para a nossa comunidade, e conseguiu.


Minha avó era minha heroína, com sua posição política, aguerrida e muito amorosa, encaminhou quase todos os filhos para o serviço público e, atualmente, a maioria está aposentada no âmbito estadual ou municipal.


Eu trago essa história, porque foi isso que me impulsionou a estudar e tentar compreender porque após anos de trabalho dos meus avós maternos, minha família se estabeleceu no Morro, sem acesso à serviços básicos e demais direitos fundamentais.


O que nos impedia de ter acesso? Essa indagação sempre me acompanhou, e ainda criança, me recordo do momento que minha avó, juntamente com uma tia nos levou à Fazenda Cafeeeira de MG, onde foram criadas.

Eu fiquei encantada com tanta terra e ao conhecer a dona daquele espaço, minha avó tratou de nos apresentar e dizer que todos os filhos estavam empregados como servidores públicos. Ela repetia algumas vezes essa fala e eu não entendia, só queria correr pelos dezoito cômodos da casa.


Fomos à cozinha e lá nos foi oferecido uma sopa aguada, enquanto a senhora que ali morava, fazia um bolo. Pensei que o bolo seria para nós, contudo, nos foi dito que o bolo era para os seus netos, que chegariam.


Atualmente, consigo fazer uma leitura daquele episódio, e o retorno da minha avó àquela casa, foi para mostrar que apesar de tudo, ela sobreviveu, resistiu e construiu uma família linda, enquanto àquela senhora, morava sozinha, em uma casa cheia de tristeza e más lembranças. E quanto ao bolo? O bolo é a nossa estrutura racista, que prepara, assa e não nos serve, porque racionalmente entende que não nos cabe nenhuma fatia, e o bolo continua sendo deles.


Entretanto, com o apoio da minha avó, pais e tios eu segui em frente, cursei Direito, engravidei no meio do curso, tranquei para cuidar do meu primeiro amor ágape, retornei e concluí. Hoje sou advogada, atuo na gestão pública estadual há mais de dez anos, especializada em administração pública, presidente da Comissão de Compliance do órgão que trabalho, pesquisadora em políticas públicas e questão racial.

Hoje, estando nesse lugar do Direito, que não se confunde com Justiça, há muito o que se falar e fazer diante das injustiças perpetuadas contra o nosso povo. Carregando toda oralitura da minha ancestralidade, me sinto bem quando escrevo, e ocasionalmente, deságuo na escrita para aliviar as demandas da vida.


Seguindo em frente, escrevo:


Escrevo porque tenho sede em me expressar

A escrita é libertadora

Vem de toda uma história de vida

Uma vida cheia de memórias

Que carrega minha ancestralidade

A oralidade das mais velhas

Transformada em palavras

Palavras são mágicas

E toda oralitura que nos é transmitida Suaviza meu dia, acalenta minha noite

A noite é minha melhor companhia na escrita

Escrevo porque com a estratégia de Oxum Escrever é um ato político


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