DEUSAS DA VIDA REAL - Episódio 1: Elen Nascimento, a diva do improvável

Atualizado: 24 de Dez de 2019

Por Chiara Ramos

Doutoranda em Ciências Jurídico-Políticas pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (Clássica), em co-tutoria com a Universidade de Roma - La Sapienza. Graduada e Mestre em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco. Procuradora Federal. Co-Fundadora da Abauomi Juristas Negras. Membra da Comissão de Igualdade Racial da OAB-PE. Professora Universitária. Instrutora da ESA e da EAGU. Professora de Cursos Preparatórios para concursos.



Hoje resolvi começar a escrever sobre as deusas da vida real, aquelas com as quais eu convivo, e um fato me impulsionou a começar, mesmo não me sentindo tão inspirada para escrever: a posse de Elen Nascimento no cargo de Analista Judiciária do Tribunal de Justiça de Pernambuco. Mas quem é Elen e por que eu digo que ela é uma deusa?

Elen Nascimento em Foto de Neri Natura

Primeiro porque o vocábulo deusa, diva, vem do idioma protoindo-europeu deiwos, que significa "celestial" ou "brilhante". E uma coisa é certa: Elen Patrícia da Silva Nascimento tem brilho próprio. Mesmo assim, quem a olha de longe corre o risco de ver apenas uma menina um tanto tímida, com uma certa melancolia no olhar, que tudo observa e pouco diz. Outros não conseguem sequer notá-la, como se a sua pele preta reluzente e os seus cabelos crespos armados fossem uma capa de invisibilidade forjada em alguma escola de magia. Muitos, inclusive, cometem a heresia de ofendê-la com olhares enviesados, demonstrando seu desconforto mudando de posições nas cadeiras, por meio de suposições estereotipadas ou até mesmo utilizando palavras brancamente grosseiras.

Enquanto isso, Elen continua seguindo firme, de cabeça erguida, como quem diz: eu não preciso da aprovação/aceitação de vocês. Por isso reafirmo, Elen é uma deusa, dotada de poderes como a resiliência e a fé. E, tal qual as deusas do Panteão Iorubá, ela empunha poderosas armas, que a permitem vencer duras batalhas e transpassar as barreiras “invisíveis” dos tetos de vidro blindado, estruturados pelo racismo à brasileira.



Sim, vou falar mais uma vez de racismo. Poderia só celebrar e parabenizar a nossa diva pela sua mais recente conquista, mas não posso deixar de mencionar que alguns espaços não foram projetados para serem ocupados por corpos negros. A própria Faculdade de Direito do Recife, onde Elen se formou, é um clássico exemplo. Como eu também sou egressa dessa casa, posso afirmar com alguma propriedade o quanto a hostilidade e a opressão paradoxalmente coabitam em um espaço historicamente, ou melhor, retoricamente progressista, republicano e libertário.


Mas não apenas a Faculdade de Direito do Recife merece ser citada, as próprias Instituições que compõem o aristocrático Sistema de Justiça Brasileiro também não foram idealizadas e projetadas para nos receber. Falando em pretuguês bem escuro, nesses espaços somos toleradas, no máximo.


“Chiara, que exagero, deixa de mi-mi-mi. Os concursos são públicos, as cotas já estão aí, as portas estão abertas para quem quiser e se esforçar” 🙄


...

...


(... = Pausa para respirar e responder).


“Será mesmo, meu caro amigo branco? Será que nenhuma mulher negra nunca quis ou jamais se esforçou o suficiente para ser Procuradora da República? Será que a esmagadora maioria das mulheres negras não querem ocupar os cargos da magistratura, por isso temos menos de 5% de juízas negras no país? Você acredita mesmo que mulheres negras escolhem trabalhar mais, carregar a maior carga tributária do país e ganhar menos que qualquer outro grupo social? Caro amigo branco, que ilógica é essa? De duas uma: ou você nega o racismo por pura má-fé, como estratégica para manter o seu sistema de privilégios, ou você tem algum problema cognitivo.


Fotos dos desembargadores(as) que compõem o Tribunal de Justiça de Pernambuco

O racismo é estrutural, minha gente, e isso fica evidente no choque estampado em rostos brancos que assistem uma sujeita como Elen Nascimento contrariar os estereótipos de gênero, raça e classe, que deveriam tê-la paralisado na encruzilhada dos múltiplos sistemas de opressão. Elen deveria ter seguido o “bom” conselho de se tornar empacotadora do mercadinho da sua comunidade (sem desmerecer qualquer tipo de trabalho), mas ela se atreve a querer mais e isso incomoda.



Mas calma, nem tudo está perdido, a mulher negra que ascende socialmente pelos próprios meios e passa a ocupar espaços de branquitude pode vir a ser aceita, claro. Afinal, somos brasileiras(os) cordiais, generosas(os), que doam cestas básicas no natal, brinquedos quebrados no dia das crianças e roupas inservíveis em alguma situação de calamidade pública. Somos cidadãs e cidadãos de bem, ora. Tratamos a “menina que trabalha lá em casa” como “se fosse da família”, desde que não se sente à mesa e que volte para dormir na senzala.


Enfim, voltando para as mulheres negras que saem em definitivo da condição de escravizadas e conquistam espaço na casa grande pelo tão aclamado “mérito”, essas devem passar a usar máscaras brancas, como nos fala Fanon. Dito de outra forma, essas mulheres podem ser aceitas, desde que não rompam com o silêncio pactuado entre os cavaleiros brancos, que fundaram a nossa República e negaram cidadania ao nosso povo. Para sobreviver nesses espaços, devemos silenciar quando açoitadas por falas racistas, devemos adotar uma postura servil e agradecer aos senhores e senhoras que nos “aceitaram” na casa grande. Devemos ser gratas por vivermos em um sistema que nos inclui, mas não nos reconhece como iguais em dignidade.

Elen Nascimento em palestra na OAB-PE, no I Talk de Direito Antidisciminatório. Foto de Luana Cruz

Mas mulheres deusas como Elen, como as demais Juristas Abayomis e como tantas outras que estilhaçam a máscara branca do silêncio são condenadas a penas diversas, que vão desde uma espécie de exílio de corpo presente a uma morte social, na qual seus gritos ecoam inaudíveis e seus corpos negros transitam sem serem vistos. Tipo Patrick Swayze naquele filme “Ghost: do outro lado da vida”, sabem?


Citei esse filme e me veio à cabeça uma evidência interessante, que me passou despercebida por tanto tempo: a única pessoa que ouve o fantasma de Sam é Oda Mae Brown, uma mulher negra, ex-presidiária, que finge ser médium em um centro espírita para ganhar dinheiro e que, por alguma contingência, consegue ouvir as súplicas do fantasma do homem branco, sendo convencida a ajudá-lo a salvar Molly, a viúva também branca, que prefere acreditar no vilão (adivinhem... também branco), que tem um comparsa que realiza o ”serviço sujo”

(esse é mexicano).


Imagem comercial do filme Ghost.

Whoopi Goldberg não foi escolhida por acaso para o papel. A sua personagem reforça o estereótipo da mãe preta, deixando a mensagem nada subliminar de que a sua redenção só pode ser alcançada quando assumir o lugar que lhe é reservado em sociedade: o de cuidadora e serva da família branca.


Uma das cenas do filme que exemplifica bem o que estou dizendo é quando o espírito de Sam convence a mulher preta a cometer o crime de falsa identidade para retirar seus milhões de dólares de uma conta e doar todo o valor a um abrigo de freiras. Óbvio que a mulher negra não quer doar todo o dinheiro, afinal ela precisa sobreviver em uma sociedade que a enxerga (quando a enxerga) como uma preta criminosa. Mesmo assim ela obedece ao homem branco, deixando a mensagem de que a moralidade da mulher negra é questionável, e que precisamos do homem branco para nos ensinar a fazer o que é “certo” (lembrem que o branco foi o mentor do crime, mas os fins justificam os meios quando se é privilegiado. Ou não?🤔).


Meninas, estou chocada com as minhas conclusões! E devo confessar que jamais teria chegado a elas se não tivesse lido bell hooks recentemente (leiam mulheres negras #ficaadica).


Mas vamos retomar o nosso tema destacando que nem só de opressão vive a mulher negra. Por mais contraditório que pareça, esse mesmo sistema que, das poucas vezes que nos inclui, não nos reconhece como iguais, também nos dá um privilégio, uma espécie de superpoder, uma visão além-do-alcance, que nos permite ver e ouvir o que está invisível aos demais. É isso que Lélia Gonzalez e Grada Kilomba chamam de privilégio epistêmico do feminismo negro. Dito de outra forma, a mulher negra, sendo a outra da outra, tem um ponto de observação privilegiado das relações sociais, mas isso é assunto para um outro texto.

Enfim, vamos voltar a nossa diva Elen Nascimento, dizendo que é praticamente impossível sobreviver a esses ambientes de opressão sem feridas, sem traumas. Por isso, é preciso ter consigo muita coragem e a força de milhares de ancestrais para se apresentar dizendo: “Boa tarde a todas e a todos, eu sou Elen Nascimento, advogada afrofeminista, ex-moradora de assentamento urbano e vim aqui para provocar uma reflexão: a profunda injustiça racial persistiu por causa do Direito, ou apesar dele?!”, como recentemente proferiu a nossa protagonista no auditório da Procuradoria da República em Pernambuco, órgão que compõe o Ministério Público Federal, a instituição mais branca do sistema de justiça brasileiro.


Elen Nascimento em palestra na Procuradoria da República em Pernambuco. Foto Chiara Ramos

Pois bem, na última segunda-feira, dia 16/12/2019, Elen Nascimento conquistou mais um espaço estratégico, tomando posse como Analista Judicial do Tribunal de Justiça de Pernambuco, cargo privativo de bacharela em direito, extremamente concorrido. Mais uma vez, contrariando todas as cruéis estatísticas e driblando as barreiras “invisíveis” das blindadas estruturas do teto de vidro da mobilidade social da pessoa negra no Brasil, a deusa-menina venceu mais uma batalha. E devemos celebrar!

Assinando Termo de Posse

Parabéns, minha querida, você é merecedora e bem sei que terá o atrevimento de não se conformar com apenas essa vitória. Temos uma guerra a ser vencida e você sabe qual o seu papel nela. Ouço o poder da natureza quando você me diz onde estará em 2022, por isso eu não duvido nem por um segundo de que você irá conseguir.



Você sabe que o caminho será tortuoso, que você está incluída, mas dificilmente será reconhecida. Você sabe que continuará lidando com o racismo, pois, por mais que no Brasil se queira reduzir a discriminação a uma questão de classe, sabemos que quanto mais escalamos a pirâmide social, mais brancos são os espaços que passamos a frequentar.


Elen Nascimento com servidores(as) do TJPE, no dia da sua posse.


Por isso, minha irmã, fortaleça a sua mente e se prepare para ser a negra única em diversos ambientes. Fortaleça a sua identidade e se orgulhe cada dias mais de ostentar os seus cabelos armados e a sua pele preta, pois o seu existir nesses ambientes já é um ato de resistência. E, acima de tudo, fortaleça a sua alma, conecte-se cada vez mais com o seu quilombo, com a sua ancestralidade e com o fato de que você é todas nós.


Abayomi Juristas Negras e parceiras no I Talk de Direito Antidiscriminatório. Foto de Luana Cruz.

Parabéns, nossa princesa de Wakanda! Sigamos juntas. Ubuntu ✊🏿✊🏿✊🏿


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