Deusas da vida real: o emocionante autorretrato de Luanda Rodrigues


Estou a quase 10 dias fugindo dele. Até fui para o espelho, quis olhar dentro dos olhos deste maldito: “Quem é você?”.



Teria sido muito mais fácil um currículo formal, um texto sobre antirracismo, aquilombamento, ações afirmativas... Pra todos esses temas tenho resposta segura, revisada, estudada, abalizada, mas para o que vi no espelho, eu não tenho.


Quem é você: “LUANDA C RODRIGUES, eu digo: Mulher Preta Candomblecista. Advogada, especializada em Direito do Trabalho e Processual do Trabalho pela UFBA. Exerceu a função de Conciliadora do TJBA entre os anos de 2012 e 2015. Membro da Associação Nacional da Advocacia Negra na Bahia (ANAN/BA) e ABRACRIM, onde está Presidenta da Comissão de igualdade Racial do Estado da Bahia. Advogada atuante nas áreas de família e através de ações Antirracistas e Antidiscriminatórias. Para além da advocacia, é Baiana de Acarajé, cantora do Coro Oyá Igbale da UNEB, fotografa e empreende!”


No entanto, não é sobre isso, aqui no AUTORRETRATO, se quer mais, quer a resposta não pronta, quer saber do meu caminhar. Quem sou no jogo do bicho, o que efetivamente me trouxe até aqui.

“Quem é você” – desconstruções e reconstruçõesconstantes, instáveis, mutantes - Um turbilhão de sonhos, medos, dores, rancores, perdas, revoltas, alegrias, força e fragilidade. Amor. “ah, quero mais não... revisitar tudo isso... não tenho nem tempo”.


Daí, vem a deusa maravilhosa Chiara, parafraseandoNeuza Santos Souza, “só é possível exercer autonomia quando se consegue construir um discurso sobre si mesmo”.


Não tem jeito. Quem sou eu? Busquei inspiração nos autorretratos que me precederam. Cada história. Quantas Rainhas. Quantas mulheres Deusas de fibra e força. Eu não tenho uma história de superação. Não tenho uma referência de uma mulher preta incrível – mãe, avó – que criou os filhos, netos... nada disso.


Eu queria falar mais de minha alegria, do quanto sou forte, do quanto carrego em mim multi-universos, o quanto sou multifacetada e tenho imensa capacidade de realização. Uma filha de Oyá chorona, moleca e sonhadora! Revoltada e furiosa contra injustiças, qualquer delas! Do quanto carrego em mim a necessidade de cuidar, de servir.


Mas o autorretrato de hoje é pra falar de como cheguei aqui. Desculpem.

Meu nome é Luanda Oliveira Rodrigues, tenho 35 anos, sou fruto do racismo estrutural. Fruto do embranquecimento e doutrinação racial. Fruto de tudo aquilo que mais luto contra. E isso dói, me invalida e por vezes me envergonha. Coloco-me nua nas linhas que seguem.


Filha de uma mulher branca, de um homem negro, irmã de um homem branco – loiro de olhos azuis-, sou mulher negra de pele clara. Classe média alta (odeio essa classificação), estudei nas melhores escolas de Salvador-Bahia, fiz intercâmbio, falo inglês fluente desde os 15 anos, e gozei de todos os privilégios que o dinheiro pode comprar, no entanto, o privilégio de estar livre do racismo não tem fortuna que baste.


Desde muito nova, fui confundida como filha da empregada ou como a própria empregada de minha mãe. Na escola aprendi sobre a solidão da mulher negra e de como iria precisar me hipersexualizar para ser “amada”, sempre odiei meu cabelo, comecei a alisar aos 14. Trançar nunca foi uma opção. Me sentia feliz por não ter traços negroides tão marcantes – afinal eu já tinha um hemangioma que toma metade de meu rosto, cabelos crespos, tom de pele “morena” e para uma vida social escolar eu já estava fadada à solidão.


Tive que me reinventar diversas vezes, saber ser interessante e até “jogar” com a condição social que meus pais me ofereciam. A época da escola foi momento de muita tristeza e vergonha, era insegura e me confortei na posição de amiga preta da menina branca popular.


Cresci sem identidade preta bem definida. Mãe branca, com consciência racial e de origem humilde, moradora do Barbalho, não foi o bastante. Pai preto, de origem também humilde – do engenho velho de Brotas - com tantas dores causadas pelo racismo que se auto negou, deu as costas ao movimento, a sua comunidade, a sua família preta... e aos poucos foi perdendo a sua identidade e doçura, seus sonhos. Coração endurecido, agressivo, opressor, me ensinou que como mulher preta nada que eu fizesse, nunca seria bom o bastante.


Incrivelmente genial, de uma inteligência e perspicácia desconcertantes, meu pai aos 18 anos já era concursado, dono de si e o verdadeiro “arrimo de família”. Caçula de 5 filhos, ficou órfão de pai aos 3 anos, estava prestes a perder a mãe para um mal súbito, quando deu à ela sua primeira e única casa de tijolos. Foi meio criado pelos irmãos mais velhos, levado para as festas, ensinado a dançar por meu já falecido tio Antônio – ele era dançarino de Raul Seixas, diz meu pai orgulhoso - ao meu ver quase o mascote da casa! Risos.


Pouco sei das histórias de vida de meu pai, de meus avós. Sei da pobreza e dificuldade, sei que sou a cópia de Dona Lurdes, toda família comenta: a mesma cara, o mesmo gênio. Meu avô, Seu Salustiano, era caixeiro viajante. Recentemente, pouco mais de 1 ano, em conversa aleatória com minha mãe, soube que a véa Lurdes era filha de Santo. Filha de Nanã.


Sempre que possível pergunto, quero saber mais, mas são memórias pouco conversadas, respostas curtas. Vazio sem fim. Na juventude acreditei até que minha família guardava algum grande segredo, tragédia em sua história. Mas só com o tempo percebi que a tragédia era um braço do racismo, a negação de si, dos seus.


Em minha primeira infância lembro que meus pais foram “amigos do Candomblé”. Tempos depois paramos de ir. E desde então ouvia meu pai falando que candomblé só servia para tirar dinheiro da gente. Que religião era a nossa própria consciência.


Por algum tempo, meu pai pisou nos caminhos da militância negra. Foi um dos idealizadores do Ilê Ayê. Esteve ao lado de criador da Steve Biko. E tantos outros projetos que não saíram do papel. E por algum motivo ele não seguiu. Eu até vi um pouco de todo esse turbilhão de sonhos, lutas, militância... mas já cresci ao largo. Ouvi mais críticas do que a efetiva voz do pertencimento.


Do lado de minha mãe, uma família branca, de descendência Austríaca, Irlandesa/holandesa (não se sabe ao certo). De fotógrafos, cineastas, fazendeiros donos de escravos. Marcada por escândalos e vícios – rica em histórias e contos dignos de novelas de época da TV popular brasileira.


Encontrar meu lugar e minha própria identidade não foi tarefa fácil. E ainda tem sido fonte de muita desconstrução e buscas. Neta da opressão e do oprimido, os dois em único corpo, padrões perpetuados por gerações, por estruturas sociais que dão fundação forte para o projeto de embranquecimento social. Sou fruto do racismo estrutural. O reflexo do conto falacioso da feliz interracialidadebrasileira.


Faço recorte mais crítico, pouco romântico de minha família. Mas por óbvio esse relato não nos resume. Somos universos infinitos e não ousaria tentar nos limitar em simples “autorretrato”.


Demorou muito tempo pra que meu despertar começasse. Não sei ao certo como e onde a chave virou. Me desvencilhar dos olhares, quase contraditórios de meus pais foi tarefa árdua. Dar espaço à minha própria vivência e experiências passou pela autonegação. Nesse período vivi um relacionamento abusivo que também contribuiu para uma autonegação ainda mais extremada. Duvidei de minha capacidade profissional, intelectual e a ausência de pertencimento me levou à depressão.


Neguei minha mãe branca. Neguei ser advogada, minha condição social privilegiada. Uma tentativa de esvaziar o que carrego em mim, para então entender quem de fato sou. Longo período de terapia, muitos equívocos e erros. Nessa busca me tornei cozinheira, baiana de acarajé e por fim me entreguei por completo à minha ancestralidade.


Aqui, compreendi que não adiantava negar nada, mas apenas abraçar, acolher. Mergulhar na dor, entender que é ela que me faz forte. É ela que me transforma e me transmuta no que escolho ser. Guiada por minha ancestralidade, voltei à advocacia. Alinho minhas ideologias ao movimento e militância negra. Sou filha de Oyá. Trago em mim a força aguerrida, sede de mudança e de realização.


E como me disse recentemente um tio, ativista da militância negra na Bahia, “o fruto nunca cai longe da árvore”. Não adianta fugir do nosso próprio destino. Eu estou aqui, esta sou eu.”



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