Deusas da vida real: o lindo autorretrato de Gabriela Tanabe.

Percebi que era "diferente" bem pequena. Naquela época, a diferença era que eu não tinha olhos puxados e nariz pequeninho. Minha mãe, quando chegou o momento de eu ir para a escolinha, teve que me explicar que eu era filha do coração e não da barriga e, por isso, eu não era igual ao meu pai e meus irmãos japoneses.



Essa diferença nunca foi uma grande diferença vai... tirando o fato que minha mãe não entendia direito como cuidar do meu cabelo.


Quando peguei piolho, o pente do produto não passava entre os fios do meu cabelo. A solução? Cortar curtinho.


Depois queria ter franja igual a todas as amigas da escola (as que tinham cabelo liso), a minha mãe, já sabendo que não ia dar certo, não permitiu. Eu, rebelde, me escondi e com uma tesoura cometi o crime. O penteado foi inspirado na "Betty, a feia" por meses: gel e pente fino grudavam o cabelo na minha testa.


Chegou um momento que ela não conseguia mais dizer não e passou a permitir que eu fizesse relaxamento no cabelo "para ficar liso". Nunca deu certo. Ela trançava (que saudade dos seus dedos em meu cabelo), ou eu colocava um lencinho ou uma boina para dar uma "arrumada". Ganhei o apelido de GaBob Marley ou Gabi Cannabis.


Junto com os apelidos, vieram as ofenças... "me dê ai um pouco do seu cabelo, para colocar na antena da TV". Tinha também o fato de nunca ser bonita o suficiente para ter um namoradinho.. as minhas amigas já no 3°, 4°, 5° beijo e eu já com meu 3°, 4°, 5° paquera que se tornou melhor amigo.


Não sabia o motivo pelo qual eu me tornava só a amiga.


Eu, que sempre fui rodeada por amigas brancas, só fui perceber anos depois que o que eu sofria era racismo. Sim, o racismo não me deixou escapar.


Mal sabia minha mãe que a diferença que me machucaria não era a de não parecer fisicamente com meu pai e meus irmãos.


Já escutei que meu cabelo é ruim, já escutei que fui contratada porque havia cota na empresa, já deixei de ser atendida em loja... mesmo eu "nem sendo tão negra assim".


Mas cá estou eu, 29 anos, assumindo meu cabelo em diversas versões (raspado, curto, longo, com tranças ou não), meu corpo gordo, meu nariz grande, meus olhos arredondados e, principalmente, meus sonhos.. pq estes, eu não vou deixar que o racismo apague.

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