RELATO SOBRE COMO ME TORNEI UMA "FEMINAZI*

Atualizado: 1 de Set de 2019

Há dois anos eu compartilhei uma imagem comparando os ganhos de Marta e Neymar e juro que não imaginei a "treta" que aquele post iria gerar. Depois de dezenas de comentários, terminei sendo catalogada como "Feminazi" e resolvi escrever um texto para não esquecer nenhum detalhe das lições que aprendi naquele dia.

Dois anos depois, a necessidade de reforçar o recorte racial está muito mais clara para mim e minha luta está mais estruturada como parte de uma coletividade e não como uma empreitada solitária. Por essa razão, eu agradeço pelas oposições que me levaram a abraçar a luta mais conscientemente. E aproveito aniversário de dois anos desse texto, para publicar uma versão aqui.


"Desculpem, mas lá vem textão, o que eu não costumo fazer, mas eu não imaginava a "treta" que iria gerar quando escrevi esse post. Confesso que fiquei estarrecida com os comentários e argumentos desenvolvidos na minha linha do tempo (e que foram estrategicamente apagados).


Só para citar alguns exemplos, hoje eu "descobri" que: 1- "a maioria das mulheres apenas não gostam de futebol"; 2- "Isso vai além da cultura machista, mas sim biologicamente de forma geral as mulheres não possuem a mesma força física e agilidade em correr (arrancada) que o homem."; 3- "Socialize comida e papel higiênico.... faltará!!!"; "Afinal os esquerdistas e globalistas ADORAM ser feministas, pró-minorias"; 4 - "Essa sanha pela igualdade é a porta de entrada para as maiores atrocidades já cometidas na história."; "as coisas são o que são"; "É muito empoderamento pra pouca realidade. Pense!"; 5 - "Vcs querem q a mulher que engravida, se afasta, não mantém uma carreira constante e ininterrupta ganhe A MESMA COISA??" 6 - "não existe machismo no Brasil"

(Entre aspas!, pois as citações são literais).



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Queridas e queridos, eu nunca fui militante feminista ou esquerdista. Eu sou uma mulher negra, nascida no interior do Nordeste, de família simples, que conhece e sente a discriminação desde sempre. Eu tinha tudo para me curvar às "leis naturais" e à "realidade", que nos oprimem dia-a-dia. O problema (ou solução) é que já nasci com a convicção de que gênero, cor, origem etc não limitam de per si a pessoa humana. Eu nasci para desafiar padrões e contesto tudo desde que aprendi a falar (segundo mainha sempre diz).



Eu cresci com a convicção de que ter nascido mulher não me diminuía, não me obrigava a aceitar os papéis sociais pré-determinados pelas estruturas do patriarcado canavieiro do interior de Pernambuco, onde cresci. Quantas batalhas eu travei com parentes por não aceitar servir aos meus primos homens ou por me recusar a lavar os seus pratos? Quantas vezes fui chamada de preguiçosa porque odiava afazeres domésticos, mesmo tirando excelentes notas no colégio e colecionando medalhas de ouro no judô?! Quantas vezes escutei que deveria me comportar como uma mocinha?! Que judô, futebol, tocar violão ou empinar pipa não era coisa de menina?! Quantas vezes fui chamada de "mulher-macho" porque preferia as brincadeiras dos meninos? O quanto eu tive que lutar para ter meu espaço de fala e defender a minha liberdade de escolha, independentemente do meu gênero e da minha cor? Muita, muito, muitas vezes.

Mas quanto maior era a oposição, mais crescia a minha determinação em ser eu mesma. Eu devo reconhecer, entretanto, que esse meu feminismo nunca foi consciente. Essa luta sempre foi por mim e pela minha liberdade de escolha, não tinha as noções sobre as complexas formas de opressão estruturais e estruturantes da sociedade. Não tinha ideia do meu papel na luta coletiva. Enfim, agia seguindo meu instinto, conectada a mulher selvagem que sempre me habitou (para fazer referência ao livro de Clarissa Pinkola Estés). E essa força ancestral nunca me permitiu calar.


E, apesar de todas as adversidades e das "leis naturais" que me fazem “inferior aos homens”, cá estou eu, Procuradora Federal, doutoranda em direito por duas universidades europeias, professora, pesquisadora e livre (isso deve incomodar muito). Como consegui? Nao tenho muita certeza, talvez seja consequência da minha fé inabalável no meu propósito. Talvez tenha sido o incondicional apoio dos meus pais, que estimularam meu espírito libertário e contestador. Talvez tenham sido as oportunidades que me foram dadas por pessoas especiais em momentos diversos da minha vida. Talvez seja só contingência ou acaso. Mas eu finalmente ocupo um espaço de fala e, como não poderia deixar de ser, de poder.

Mesmo assim, eu continuo travando lutas diárias. Continuo tendo decisões e competência questionadas cotidianamente. Continuo tendo que ouvir o quanto é raro ver uma mulher inteligente e bonita. Continuo sendo confundida com um vaso quando sou a única mulher a compor uma mesa de debates ("agradecemos a colega que veio enfeitar a mesa"! Não! Pelo amor das deusas, frequento eventos científicos para contribuir com as minhas ideias e não para embelezar a mesa. Eu não sou um jarro! Isso não é um elogio!). Continuo tendo que aumentar meu tom de voz para não ter minha fala interrompida.


Não é fácil, mas eu reconheço que eu estou em posição privilegiada, em comparação a maioria das manas. Infelizmente, histórias como a minha estão longe de ser a regra! Eu tenho consciência de que sou exceção. Por isso, eu nunca vou dizer que tudo depende exclusivamente do esforço pessoal e que as oportunidades são iguais para todxs (isso seria uma insanidade).


Harvard Law student explains Wakanda-inspired photo shoot: 'We have challenged, reshaped, and reclaimed this space'

Digo isso para deixar bem claro que esse não é um discurso de mérito, tão utilizado para deslegitimar as políticas afirmativas. Muitas de nós estão paralisadas pelo medo, pela apatia, pela falta de representatividade ou mesmo pela conformação. Eu sei o quanto pode ser difícil reagir, por isso cá estou eu no meu processo de conscientização sobre a luta das mulheres por liberdade (sim, pois é muito mais uma questão de liberdade que de igualdade). E a liberdade, como bem diz Angela Davis, é uma luta constante. E nesse combate, a minha arma são as palavras. Como diz Conceição Evaristo, "Não é preciso portar armas. É preciso portar voz. Porque falar estilhaça a máscara do silêncio" e desde criança eu venho estilhaçando máscaras e quebrando o "sagrado" pacto do silêncio.


Em síntese e para concluir, o que essa discussão toda me fez perceber? Que pela posição estratégica que eu ocupo hoje, eu devo assumir uma responsabilidade social ainda maior nessa luta contra o machismo e o racismo. Não apenas por mim, mas por todas nós. E não sozinha, mas com todas vocês. Temos que entender que juntas somos mais fortes e evitar cair na tentação da representação da história como o trabalho de indivíduos heróicos.


Pronto, meus queridos "reaças", vocês acabaram por "criar" outra "feminazi". Parabéns ! Essa luta agora é conscientemente nossa! E fica a pergunta: "quem tem medo do feminismo negro"? (livro da mana Djamila Ribeiro)....


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https://www.facebook.com/chiara.ramos.9/posts/10209189453961580






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